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Gatilhos de uma sexta à noite

numabad

Desenho de comprimidos com nomes de pessoas caindo de um frasco de remédio
O melhor remédio para dor de cotovelo é um crush novo

Sou tão nova. Passo os dias da semana esperando minha vida começar no fim de semana, sonho acordada, há uma sensação latente de que estou no lugar errado. Não tenho amigos naquele prédio cinzento, sou como um fantasma, visto por pouquíssimas pessoas, sem que eu tenha nenhuma escolha sobre isso. Desejo ficar sozinha, mais do que tudo, é um prazer chegar e encontrar a casa vazia, respirar sem um aperto no coração. Eu me sinto desajustada perto das pessoas, estou confortável comigo mesma quando ninguém está olhando. Jogo uma bola na parede, boto um CD para tocar, rabisco nos cadernos da escola.


Eu gosto de um garoto, ele se torna meu amigo. Ele me dá nos nervos, mas passamos horas no telefone e ele me conta tudo da sua vida. Rimos juntos quando meu avô briga comigo por passar muito tempo ocupando a linha. A risada dele é boba e me faz querer tocar seu cabelo. Vamos ao cinema, ele não tenta me beijar, mas tudo bem, ele não deve saber que quero ser mais do que sua amiga. Escrevo uma carta para ele, nunca falamos sobre isso. Hoje lembrei dele e procurei seu perfil no Facebook, está casado e tem filhos e vê-lo adulto me dá uma sensação de irrealismo. É engraçado pensar em alguém de uma certa forma por tanto tempo e ver que esse alguém se tornou quase uma outra pessoa.


O vizinho charmoso me cumprimenta com dois beijos na bochecha. Sentamos na escada do prédio e confessamos alguns segredos no escuro, embaixo da janela de alguém. Por muito tempo, podia evocar o cheiro dele à menor lembrança daquelas férias, seu braço ao redor dos meus ombros e seu hálito soprando carinhosamente meu pescoço. Ele sempre tem um sorriso para mim, mas quando chega a hora, escolhe outra garota para beijar. O irmão dele me beija como um favor para um amigo, sou moeda de troca. O beijo tem gosto de hormônios e humilhação. Depois disso perco a vontade de descer para o play e jogar totó com o grupo de sempre. Lá eu sempre fui estrangeira mesmo.


Mais uma festinha de rua. Todas as minhas amigas beijaram na boca, menos eu. Passo o tempo vendo os playboys do bairro subindo e descendo a rua com suas motos. Gosto de uns quatro meninos e nenhum deles sabe que eu existo. Fico ofendida porque alguém que considero feio pediu para ficar comigo. Volto para casa tonta de caipifruta, uma palavra rodopia sobre minha cabeça quando deito. Fecho os olhos e invento uma história nova.


Tenho amigos agora, sou a única do grupo que não namora. Decido me apaixonar. Na maior parte do tempo não gosto dele. Escutamos as mesmas músicas e isso é a única coisa que temos em comum. Detesto o jeito como ele fala com meu irmão. Mesmo assim hesito, isso não é melhor que ficar sozinha? Durante as aulas, observo e sou observada, pela primeira vez na vida. Ele senta ao meu lado, eu sorrio. Depois da aula ficamos na praça da rua de trás. Eu perco o ônibus de volta todo dia. Deixo tudo isso para trás no primeiro ano do ensino médio.


Decidi ser uma pessoa diferente, confiante, para variar, mesmo que só na superfície. Embaixo de uma árvore, conversamos pela primeira vez. Temos muitas coisas em comum, ele toca minhas músicas preferidas no violão e matamos muitas aulas nas sextas-feiras. Brigamos muito, mas eu não consigo abrir mão dele. Estamos juntos quase o tempo todo, tenho ciúmes de todos, não quero perder nada da vida dele. De repente, todo o resto é insuportavelmente chato, deixo tudo de lado. Todos os aspectos da minha vida não relacionados a ele são secundários.


Estou apaixonada por uma amiga. Ela namora uma menina com o mesmo nome que o meu. Ninguém sabe. Ninguém. Quando bebo, ela é a única pessoa que quero ver. Por causa dela, eu durmo na rua uma noite. Ela nunca soube de nada disso. Eu precisei de mais dez anos para processar essa descoberta sobre mim.


Estou sozinha e me sinto livre. E que surpresa chocante, descubro que todo esse tempo fui desejada. Quebro a cara, tomo a iniciativa, vivo histórias. Amo. Vou longe, vou para dentro. Existe um universo em mim, mutante e implacável, com um poder de criação e destruição igualmente explosivo. É que ninguém pode ver, eu continuo passando despercebida. Quando chorei, fui eu mesma que me consolei, a palavra de ninguém amainou minha ferida, a não ser as que escrevi, para sarar a tristeza, eu me basto. Conheço meus mecanismos e macetes.


Talvez eu tenha gostado demais de estar sozinha, ou me tornei uma pessoa cínica. Talvez eu já tenha vivido as minhas melhores histórias de amor. Ainda sou a mesma menina invisível nas festinhas, afinal de contas. Apesar de ter apertado as pecinhas da autoestima, feito manutenção constante nas engrenagens que enviavam aquela palavra para o nível consciente, ainda assim dói. Quando olho no espelho, tenho adjetivos gentis para falar sobre mim, e se revisito meus feitos, tenho até uma definição legal para descrevê-los. Por que dói, então? Sou eu? Ou são os outros? Por que dói?


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