Lá vou eu de novo
- Nana Moura
- 2 de set. de 2024
- 4 min de leitura

Entro na sala sempre com a mesma urgência, tenho que ver se você está lá. Não preciso percorrer com os olhos as mesas muito próximas umas das outras, eu sei exatamente onde você estará, lá no fundo, bem na última cadeira à esquerda, um lugar vago ao seu lado, que é meu. Me asseguro que é você lá, embora não encare seu rosto nenhuma vez. Meu rosto está quente, deve ser por causa das escadas que subi. É uma força esmagadora que me impede de encarar, no fundo, quase inconscientemente, acredito que se olhar diretamente nos seus olhos vou saber a verdade, e talvez eu exploda. Eles são a única parte do seu rosto que posso ver, mas às vezes eu tenho certeza de que se pudesse ver o resto, pegaria você no flagra zombando de mim, mesmo o castanho dos seus olhos levemente alongados parece dizer algo para mim. Eu sempre me pergunto, mas a resposta que me dou varia dependendo da minha percepção de mim mesma no dia.
Na primeira vez que venci os poucos passos até meu lugar, pedindo licença e perdão ao passar por pessoas que arrastavam suas cadeiras para me dar espaço, você foi o centro gravitacional para onde fui atraída, uma estática quase palpável que faz, até hoje, os pelos do meu braço direito arrepiarem toda vez que assumo meu lugar ao seu lado, agora já quase um acordo tácito entre nós. Bom, enquanto eu cruzava a sala pensei merda, esse cara tem potencial para foder com a minha vida, e por isso decidi sentar ali.
Você se inclina para me ouvir. A visão da linha longa do seu pescoço meio coberto pelo capuz do moletom me deixa com dificuldade para escolher bem as palavras que quero falar, posso ver onde o corte do seu cabelo já começa a crescer, e o brinco que eu mesma gostaria de usar. Eu preciso de uma força descomunal para não estender a mão e tocar sua nuca e saber enfim se sua pele é tão quente quanto eu imagino, mas eu só queria pedir suas anotações emprestadas. Você ignora essa batalha que só acontece na minha cabeça e diz claro e arrasta o caderno dobrado no meio para perto de mim. Você usa anéis nos dedos, eu já tinha reparado porque de vez em quando você os desliza pelo cabelo escuro e ondulado, deixando tudo numa bagunça adorável. Cada um desses anéis está cuidadosamente posicionado, mais acima ou abaixo das juntas, sobre a pele cortada por pequenas veias.
Digo que esqueci minha cópia do texto em casa e você me oferece a sua na mesma hora e lemos juntos. Meu corpo está tão tenso com medo de chegar mais perto que sinto dor. Acho que morreria se sentisse o menor sinal de rejeição, seria humanamente insuportável.
Você aparece na mesma aula que eu, aquela que achei que faria sem você, não é coisa de filme? Eu passo uma hora me convencendo de que posso e devo pedir seu telefone e uma noite em claro por não ter tido coragem. Em um outro dia, no corredor ao ar livre, você me conta o que perdi de uma matéria, mas não consigo entender se o seu tom de desinteresse é pela aula ou por mim. Estava distraída pelo contorno da sua boca, uma visão rara e quase onírica.
Escutar sua voz é como sentir a água quente do chuveiro escorrer pelo corpo depois de pegar uma chuva gelada. Grave, calma, reticente. Do outro lado da sala eu te olho porque não é comigo que você fala. Assim eu posso observar um minúsculo sinal de nervosismo no jeito que você mexe os pés, um traço de humanidade! Aliás, ninguém diz hipertexto como você.
Você está na porta da faculdade, antes da entrada onde dois funcionários olham as bolsas de todo mundo com a mesma atenção que tenho quando vejo um filme mexendo no celular. A ponta do seu cigarro brilha com uma pequena chama laranja no meio da tarde escura de outono. Faz tanto frio que minha respiração vira fumaça em frente ao meu rosto enquanto travo a bicicleta, mas você está usando a mesma jaqueta jeans de muitas semanas atrás, quando os dias eram mais longos e eu ainda não precisava de luvas para pedalar. Aqui estou, uma mulher que cruzou um oceano só para provar que podia, com medo de dizer oi. Tenho uma consciência opressora de cada movimento que faço, sinto mil olhos sobre mim, embora todos continuem seus caminhos sem prestar atenção em mais uma pessoa no mundo.
Atravesso a rua calculando quantos jeitos diferentes há para dizer tudo bem?, mas já estou muito próxima de você e ainda não decidi qual vou usar. Meus pés hesitam entre seguir em linha reta ou ir em direção à porta, de volta à segurança de não fazer nada. Eu penso que todos devem ter percebido como sou patética e desajeitada. Até você levanta os olhos e percebe que estou lá. Ainda não é tarde demais, posso fugir e manter a distância, os trinta centímetros entre as nossas cadeiras, e continuar idealizando você para sempre.
É como estar em uma longa curva fechada em um precipício, o corpo se enche de calafrios, mas é muito excitante também, além disso você não sabe o que vem quando finalmente a curva acaba, mas tudo bem porque a emoção está nela, não no que vem depois. Por que arriscar quebrar esse encanto? eu me pergunto um momento antes de você olhar direto para mim. Vejo sua expressão séria se tornar meio atrevida, é uma mudança muito sútil, talvez eu tenha inventado, você solta a fumaça da última tragada e sorri para mim.




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