Passe um tempo comigo e veja como é ter TDAH
- Nana Moura
- 10 de set. de 2024
- 4 min de leitura
I'm fine, I'm totally fine

O que ando pensando é sobre quem quero ser, para além de personalidade, eu já desisti dessa ideia de ser outra pessoa, mas de quem vejo quando me vejo. Ando assistindo alguns (muitos) vídeos de pessoas produtivas no TikTok, que acordam cedo, fazem maquiagem, vão ao trabalho, limpam a casa, estudam, fazem academia, saem com os amigos, tudo num só dia. Esse tipo de vídeo tem um efeito muito esquisito sobre mim. Me fascinam, para começar, como se estivesse vendo diante de mim uma espécie de ser humano diferente, altamente funcional, evoluído, enquanto eu ainda não resolvi como se faz para lembrar de comprar leite antes que acabe o que tem na geladeira. Por outro lado, me deixa num ponto de ansiedade insuportável, pensando que eu também deveria ser assim, qual é o meu problema?
Nesse ponto da minha vida já sei qual é o meu problema e já deveria ter aceitado que não serei assim. Mas uma parte de mim ainda tem esperança de que o TDAH vá embora, que eu ainda não tenha tentado alguma técnica que vai me fazer adquirir o nível de alta performance que eu vejo na internet. Sim, eu sei que é tudo mentira, que é editado, que na maior parte não é assim de verdade. Mesmo assim tem sempre uma vozinha que diz no meu ouvido que sou preguiçosa, que a culpa é minha, que não me esforço o bastante. Odeio essa voz, mas ela me segue o dia inteiro o tempo todo.
Assisto esses vídeos como um exercício de masoquismo, esperando que eles me ensinem algo que não sei enquanto me sinto mal a cada vez que deslizo a tela para ver o próximo. E me pergunto por que, por que eu sou assim e não de outro jeito? Um jeito que deixe minha vida mais fácil. Não importa quanto conteúdo sobre TDAH eu veja, que me expliquem como meu cérebro funciona, que eu ria das situações familiares vividas por outros como eu, ainda não cheguei na parte em que aceito que sou assim.
Eu estou simplesmente exausta de estar sobrecarregada por mim mesma, de ser tão autocentrada e autoconsciente devido aos mínimos erros que cometo porque tem alguma coisa que falta no meu cérebro.
Exausta de ter a atenção de um peixe quando preciso escrever um trabalho e de não conseguir pensar em outra coisa quando estou com hiper foco. Engraçado é que essas características me deram muito conhecimento – nem sempre útil – sobre diversos assuntos, e já houve momentos em que fiquei feliz de saber tantas coisas, mas no geral eu preferia conseguir escrever uma frase à caneta sem rasurar o papel, organizar minha vida financeira e não estar sempre atrasada. De alguma forma, sinto que isso seria mais útil para manter minha sanidade.
E ainda tem aquela mínima chance, aquele pensamento intrusivo que vem rastejando lentamente, como um inseto pegajoso e gosmento: e se eu não tiver TDAH e só estiver arrumando uma desculpa? E se? Minha falta de confiança no meu próprio julgamento se estenda não só a mim, mas ao médico que me diagnosticou e a todas as pessoas, porque se eu posso errar com tanta frequência e fingir que está tudo bem, o que garante que as outras pessoas não estão fazendo o mesmo?
Todos somos impostores, então? Ou sou só eu? Estamos todos fingindo? Não venha me dizer que todo mundo sabe o que está fazendo menos eu. De qualquer forma, eis uma lista de coisas que já comecei a fazer – tendo levado em frente ou não – por causa do TDAH. Eu nunca coloquei essa lista por escrito, e como acontece na maior parte do tempo comigo, pode ser que eu não tenha noção do tamanho ou gravidade da situação até ver por escrito.
Inúmeras histórias que nunca terminei de escrever, uma lojinha de crochê, vender brownie, vender cupcake, vender cookies. De todos esses desisti porque não consegui chegar na qualidade que eu achava ser preciso para ter a cara de pau de vender. Ironicamente, agora sou uma expert em cookies e brownies graças aos três anos trabalhando como au pair e cozinhando com crianças. Vender palha italiana. Um curso de marketing digital, um curso de ferramentas de design, francês, coreano, macarons (os doces), graduação em Gastronomia, pintura com guache, lives na Twitch. Comprei Tomb Raider e nunca nem instalei o jogo. Bullet jornal – que eu achei que ia resolver meu problema de planejamento. Aprender a cantar. Um canal no YouTube. Quando tentei criar conteúdo no Instagram para ganhar leitores. Curso de HTML, um blog. Certamente devo ter esquecido de algumas coisas.
O peso de todas esses quases, de todas essas mudanças se arrasta atrás de mim, é quase um peso físico. Como eu faço para me desfazer de tudo isso? Eu devolvo para alguém, tem um serviço que aceita culpa por não conseguir seguir até o fim com nada? Eu nem vou mencionar o impacto nas relações, pois precisaria de muito mais do seu tempo do que você provavelmente quer me dar.
Perfeccionismo, ansiedade, procrastinação, falta de foco, excesso de foco, cansaço, impulsividade, falta de ação, rompantes de agressividade, dificuldade de controle emocional, separações, falta de memória, abstração, distração, sono desregulado, um mestrado, vários empregos de estudante, newsletter, um livro e a autocrítica por não dar conta de tudo. Eu estou exausta. Honestamente, eu não sei como cheguei até aqui e muito menos como vou sair daqui.





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